24 de fev de 2016

Denúncia sobre uso massivo de pesticidas perigosos alarma vizinhos de vinhedos na França

Causou comoção na França a denúncia sobre os malefícios que o uso intensivo de agrotóxicos nos vinhedos pode causar aos habitantes das proximidades dos parreirais. A notícia foi divulgada no programa "Cash Investigation", do canal de televisão France 2, apresentado pela jornalista Elise Lucet, no dia 2 de fevereiro.

Segundo a reportagem as pessoas estão expostas pelo ar, água e alimentos a pesticidas potencialmente perigosos à saúde. O foco do programa foi a realização de uma pesquisa, patrocinada pela produção da TV, utilizando como amostras mechas de cabelos de 20 crianças que frequentam escolas e habitam nas proximidades dos vinhedos, no departamento de Gironde, onde está situada a região vinícola cujo centro é Bordeaux. Segundo a administração desse departamento há 132 escolas em áreas consideradas sensíveis, em razão da proximidade com locais onde são aplicados pesticidas.

Cartaz do coletivo Generations Futures
As amostras foram analisadas por um laboratório público de Luxemburgo. O resultado foi que, em média, as crianças apresentam resíduos de  44 pesticidas em seus organismos, 24 dos quais proibidos, mas  ainda presentes no ambiente, ou permitidos mas classificados como perigosos pelas autoridades.

O programa também mostrou um mapa por departamento indicando a quantidade de herbicidas, fungicidas e inseticidas anualmente vendidos e identificando quais mais utilizados. Em toda a França, entre 2008 e 2013 foram consumidos anualmente cerca de 65 mil toneladas de pesticidas puros, considerados perigosos ou potencialmente perigosos para a saúde humana, indicou a reportagem. Os departamentos que estão no topo da lista do consumo são Gironde, Marne e Loire Atlantique.

Segundo a reportagem, nesses três departamentos a lista de agrotóxicos utilizados inclui 71 produtos que são julgados perigosos ou potencialmente perigosos pela Agência Americana de Proteção Ambiental, pela Comissão Européia, e pelo Centro Nacional de Pesquisa sobre o Câncer da França, ligado à Organização Mundial da Saúde.

Contraditando o programa televisivo, o jornal parisiense Le Point argumentou que o relatório utilizado indica também que 97% dos alimentos produzidos na França não contém resíduos que ultrapassam os limites autorizados. Citado pelo jornal, o presidente do Conselho Interprofissional do Vinho de Bordeaux e presidente da Confederação Nacional de Vinhos da França, Bernard Farges, admitiu que o problema existe, que a diminuição dos produtos fitossanitários e pesticidas é uma grande preocupação do mundo vitícola e que o desenvolvimento de variedades vinícolas que necessitem pouco ou nenhum tratamento (em experimentação na Alemanha, Suíça e Itália) é um dos caminhos a seguir.

Em Bordeaux, no dia 14 de fevereiro, ocorreu uma "marcha branca", reunindo centenas de pessoas, com o objetivo de alertar a população em relação aos perigos dos pesticidas. Foi organizada pela Confederação de Agricultores e vários coletivos regionais, como "Gerações Futuras" e   "Fito-Vítimas".

Um comentário:

Helena disse...

Ótimo e muito bem escrito artigo! Resume bem toda as discussões. Quais seriam os resultados nos vinhedos gaúchos? Seria interessante saber se aí também há essa preocupação.