22 de fev de 2010

NEGÓCIOS FRAUDULENTOS NO MUNDO DO VINHO




De como o filme Sideways, ao fazer crescer o consumo de Pinot Noir, nos Estados Unidos, “inspirou” a articulação de uma fraude


No dia 18 de fevereiro, o tribunal correcional * de Carcassone, região de Languedoc-Roussillon, no sudoeste da França, condenou a penas de prisão de 1 a 6 meses e multas de milhares de euros, 12 administradores de empresas de comércio de vinhos, negociantes, produtores e cooperativas vinícolas, responsáveis por uma das maiores fraudes que se tem conhecimento recente no mundo do vinho. Segundo o jornal Midi Libre on line, de Montpellier, cerca de 135 mil hectolitros de vinho regional comum a granel – o equivalente a 18 milhões de garrafas – foram vendidos entre 2006 e 2008 a empresas norte-americanas como sendo do varietal Pinot Noir.

Entre as empresas que receberam o falso Pinot estão E.& J. Gallo, maior produtora/importadora de vinhos dos Estados Unidos, que vende o varietal francês sob a marca Red Bicycle. Acredita-se também que e a número um mundial do setor, Constelation Brands, que controla, entre outras, a famosa marca de vinhos Mondavi, da Califórnia, também tenha recebido parte do vinho fraudado, pois está na carteira de clientes da empresa Cave de Sieurs d’Arques, de Limoux, exportadora final do falso Pinot.


Segundo o juiz relator do processo, a fraude propiciou ganhos ilícitos de cerca de 7 milhões de euros e, por sua amplitude, constitui um prejuízo severo para a imagem dos vinhos do Languedoc, para os quais os Estados Unidos são um mercado importante, noticiou o jornal regional on line L’Indépendant. As condenações incluem penas de 1 à 6 meses de prisão (com sursis) e multas de 1.500 à 180.000 euros. Uma das principais empresas envolvidas, Cave Sieurs d’Arques,  já apelou da decisão, nesta semana.

A fraude foi denunciada no início de 2009, mas teria começado em 2005. De acordo com parte do relatório de 45 páginas do processo, disponibilizado pelo L’Indépendant, a descoberta ocorreu durante uma inspeção de rotina dos agentes regionais da Direção Geral da Concorrência, Consumo e Repressão de Fraudes, subordinada ao Ministério da Economia e Indústria francês, que faziam o levantamento nacional para o estudo do mercado dos vinhos varietais.

Em uma das empresas de comércio de vinhos inspecionadas, em Carcassone, eles tiveram uma surpresa: constataram que o volume do varietal Pinot Noir comercializado num dado período correspondia, naquela única empresa, ao volume da produção total anual desse varietal em toda região do Languedoc Roussillon. Em 2006, a empresa teria comercializado 93 % de todo o vinho Pinot Noir produzido na região e, em 2007, o total chegaria a 132%! Observe-se que a cultura desse varietal é marginal na região, onde preponderam outros varietais tintos, tais como carignan, grenache, syrah, cinsault, mourvèdre e muscardin. Por outro lado, o preço pago por essa empresa a seus fornecedores era sensivelmente inferior à média de preço do varietal Pinot Noir registrada pelo escritório nacional da cadeia de produção de uvas, frutas e hortaliças da França (Viniflhor), mas bem maior do que o preço do vinho regional comum, oriundo de assemblage de outros varietais. 

Segundo os intermediários das vendas de falso Pinot, o interesse dos clientes estadunidenses por esse varietal se deu pelo aumento do consumo conseqüente à exibição de um filme, em cuja trama romanceada, um personagem exaltava as qualidades do varietal Pinot Noir (evidentemente, Sideways,lançado em 2004). Bastava que as partidas exportadas fossem identificadas como Pinot. Para encobrir a fraude os comerciantes de vinho mantiveram registros em duplicidade. Nas notas arquivadas nas empresas, constava a venda de vinho regional comum. Nas notas de exportação, venda de Pinot. Durante o inquérito judicial, eles argumentaram que para o mercado dos Estados Unidos, o termo Pinot não passa de uma referência comercial, e que o essencial era que as qualidades organolépticas do vinho correspondiam às amostras pré-selecionadas pelos compradores. O jornal Midi Libre informa que o vinho objeto da fraude era dos varietais Merlot e Syrah.

Personalidades do primeiro plano vitícola da região do Languedoc Roussillon estão no rol dos condenados, como o presidente e o diretor da Cave Sieurs d'Arques, de Limoux, que representava o último elo do negócio, envolvendo dirigentes de oito vinícolas nos departamentos de Aude e de Hérault, tais como Vignobles Maurel, Fabrezan Viticulture, caves cooperativas de Canet d'Aude e de Barbaira, Cooperativa e Sociedade Comercial de Montblanc, Cave Cooperativa de Pignan, Sociedade Clairiège de Nissan-les-Enserune e a Cave Cooperativa de Cournonterral. As vinícolas forneciam sua produção à empresa comerciante de vinhos Ducasse, em Carcassonne, cujo diretor foi considerado verdadeiro articulador do esquema. Essa última revendia o falso Pinot à Cave Sieurs d'Arques que o exportava.

Nos Estados Unidos, segundo despacho da Agência France Presse, citado por L’Indépendant, um comunicado da E.&J. Gallo, manifesta que a empresa ficou profundamente decepcionada com a condenação da Cave des Sieurs d'Arques. Em atenção aos seus consumidores, Gallo informou que o caso não estava relacionado com sanidade ou segurança alimentar dos vinhos, que o Pinot em questão era das safras 2006 e anteriores e que esses vinhos não estão mais à venda. Acrescentou ainda que as quantidades compradas da empresa Cave Sieurs d’Arques representam apenas 20% do total considerado fraudado. A E.&J. Gallo não integrou a demanda judicial.

* Na França, o Tribunal Correcional é uma câmara colegiada que julga delitos criminais, fazendo parte do Tribunal de Grande Instância, encarregado das matérias cíveis.


Fontes: L'Indépendant; La Depeche.fr; Midilibre.com; www.oenologie.fr

Um comentário:

Helena disse...

Já tinha ouvido falar do filme e gostaria de assistir, mas não sabia que estava envolvido em uma polêmica como essa.
Acho que essa medida fraudulenta deve ser um reflexo do desespero dos produtores franceses, que vêem suas exportações caírem enquanto as importações de vinhos, como os chilenos, por exemplo, aumenta...