28 de dez. de 2012

AFINAL, UM VINHO AUTÊNTICO O QUE É ?



As expressões "vinho autêntico" e "vinho natural" permeiam milhares de comentários, opiniões e material de publicidade, tentando traduzir, às vezes sem muito fundamento, qualidades que aportariam dignidade à bebida resultante de uvas fermentadas.

Buscando dar significados a esses termos, dois escritores britânicos publicaram em 2011 um extenso estudo sobre o tema. 

Nas 259 páginas do livro  "Authentic Wine - Toward Natural and Sustainable Winemaking", Jamie Goode, jornalista científico e comentarista de vinho em publicações inglesas, e Sam Harrop, Master of Wine, produtor de vinho e consultor independente em enologia, em países como Nova Zelândia, França, Inglaterra e Portugal, aprofundaram questões em torno do assunto.

Para Goode e Harrop, os elementos que referendariam um vinho "autêntico", são os seguintes, em resumo:
 
Viticultura sustentável. O vinhedo é encarado como um agroecosistema, favorecendo microorganismos, insetos e plantas que mantenham a saúde do solo; utilizando espaçamento e sistemas de condução apropriados, permitindo que o vinhedo alcance um equilíbrio natural.  


Maturação apropriada. Colheita na hora certa, para reter o frescor e a definição das uvas e evitar altos potenciais de álcool. 

Sensibilidade ambiental.Minimização da "pegada de carbono" (medida de impacto das atividades humanas quanto à emissão de gases de efeito estufa) em todos os estágios de produção, da uva à prateleira.


Produto livre de defeitos. Vigilância para prevenir defeitos do vinho que obscureçam e prejudiquem o sentido de lugar da produção.

Senso de lugar. Respeito ao "terroir", ou seja, atenção e escuta ao lugar do vinhedo, permitindo que se expresse no vinho.



Elaboração natural. Adições e manipulações mínimas,  com o objetivo de manter o sentido de lugar de produção do vinho.

Considerando esses fatores, apenas uma pequena gama de vinhos entraria no conceito de "vinho autêntico" de Goode e Harrop. Em realidade, a maioria dos vinhos são vinhos-commodities - como um produto agroindustrial qualquer - respondendo a demandas de um grande mercado consumidor, nacional e internacional.

A abordagem sustentável e mais natural, representada por umas poucas vinícolas, tende a quebrar a homogeneização e brindar vinhos com definição, complexidade e senso de pertencimento a um lugar. Porém, por enquanto, para um mercado muito restrito.

30 de nov. de 2012

CRESCE A LINHA DE VINHOS VARIETAIS A PREÇOS POPULARES

INDÚSTRIA VAI EM BUSCA DO CONSUMIDOR DE R$12,00

Depois de provar aos consumidores exigentes, à mídia especializada, e à alta gastronomia que "sabe" fazer bons (...mas caros...) vinhos, a indústria vinícola brasileira volta-se também para o consumidor comum interessado em vinho. Aquele que estava acostumado à bebida barata de uvas americanas nacional e a vinhos argentinos de custo irrisório e de elaboração duvidosa  -  ou por tradição, ou porque os varietais brasileiros estavam fora do alcance do seu bolso.


Necessidade de escoar os estoques,  caça aos novos consumidores,  fazer frente à concorrência de vinhos básicos argentinos e chilenos, a verdade é que,  desde o início de 2012, a indústria engordou a linha de vinhos varietais na faixa de R$12,00, antes reduzida à produção de umas poucas vinícolas. Os rótulos tem preços que variam entre R$8,50 a R$13,90. O resultado dessa oferta é perceptível  nas gôndolas dos supermercados e não se resume apenas a vinhos tranquilos.

Cresceu também o número de marcas de espumantes e vinhos frisantes nessa média de preço. Neste inverno, numa filial de uma grande rede de supermercados de Porto Alegre destinada a consumidores de classe A/B, mas frequentada crescentemente pela nova classe C, a área destinada a vinhos nacionais já era equivalente a de vinhos estrangeiros, tantas as novas opções inseridas nas gôndolas. Isso muito antes de encerrada a querela das salvaguardas aos vinhos nacionais, que culminou em acordo pelo apoio do varejo à maior exposição da produção nacional nas prateleiras...


Em geral, são vinhos simples, com alguma intensidade de aroma e sabor, a maioria corretamente elaborados, predominando um leque de varietais mais conhecidos, entre os quais Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Riesling.  

A novidade são os varietais tinto "doce", algo impensável até pouco tempo, quando o que fugia do "seco", apenas alcançava o "meio-seco", em se falando de varietais. O que se percebe é que aumenta a concessão que se faz ao gosto pelo adocicado da população brasileira, algo que, não entanto, não é apenas fenômeno nacional, mas corrente nos Estados Unidos e outros países. Daí, que até os "secos" estão no limite do que se pode enquadrar como tal, com paladar adocicado desde o início. Mas isso não é privilégio da linha de entrada de vinhos. Inclusive vinhos "premium" nacionais estão se enquadrando nessa tendência.


Dentre rótulos encontrados na faixa dos R$12,00 encontra-se inclusive um vinho premiado com medalha de ouro no VI Concurso Internacional de Vinhos do Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Enologia, com jurados internacionais, em julho último, em Bento Gonçalves. É o Cabernet Sauvignon Virtus 2011 Monte Paschoal, seco.  Mas ainda há muitas opções de vinhos engarrafados, elaborados com uvas americanas, a preços mais baixos  (de R$6,00 a R$9,00), sinal de que esse segmento continua tendo importância econômica para a indústria.


Rótulos de varietais a preços populares encontrados em supermercado de Porto Alegre - vinhos tranquilos:
  • Almadén (Miolo Wines)- Cabernet Sauvignon (seco e suave),Shiraz,Tannat,Merlot, Riesling.
  • Arbo (Perini) - Cabernet Sauvignon, Moscato, Merlot, Riesling, assemblage Cabernet Sauvignon/Merlot
  • Santa Colina (Coop. Nova Aliança) - Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, Pinot Noir, Riesling
  • Classic (Salton) - Tannat, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Chardonnay, Riesling
  • Marcus James (Coop.Aurora) - Cabernet Sauvignon,Tannat, Pinot Noir, Riesling, Sauvignon Blanc, Chardonnay
  • Granja União (Coop. Garibaldi) - Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc (suave), Riesling, Malvasia (suave)
  • Gran Legado - Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay
  • Virtus Monte Pascoal (Vinhos Basso) - Cabernet Sauvignon (seco e suave), Merlot, Chardonnay, Moscato, Tannat, Merlot Rosé
  • Vale da Ferradura (Marson) - Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay
  • Clos de Nobles (Coop. Aurora) - Cabernet Franc, Tannat, Riesling
  • Aquasantiera (Coop. Garibaldi) - assemblages Tannat/Merlot/Cabernet Sauvignon e Moscato/Riesling/Trebiano
  • Saint Germain (Coop. Aurora) - Merlot (meio-seco), Cabernet Franc (suave), assemblage Cabernet Franc/Merlot, assemblage Moscato/Trebiano
  • Serra Nevada (Salton) - Cabernet Franc (meio-seco), Cabernet Sauvignon, Merlot 
  • Conde de Foucauld (Coop. Aurora) - Cabernet Franc
  • Jota Pe Varietal (Perini) - Moscato 

12 de out. de 2012

AVALIAÇÃO INDICA TENDÊNCIAS PARA OS VINHOS DA COPA

O conjunto de vinhos apresentados ao público na  20ª Avaliação Nacional de Vinhos - Safra 2012, em 29 de setembro, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, pode indicar como serão os melhores vinhos a serem oferecidos aos brasileiros e visitantes na Copa Mundial de Futebol, no Brasil, em 2014. A observação é de Cristian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia, entidade organizadora do evento. A maioria das amostras destacadas na Avaliação ainda encontra-se em maturação, em tanques ou barricas, devendo entrar no mercado ao longo de 2013 ou 2014, o ano do campeonato.

Entre os 16 mais representativos da safra 2012, estão vinhos brancos agradáveis, frutados e florais;  vinhos tintos de cor rubi intenso, vermelhos e violáceos, de taninos médios, macios, com aromas de frutas negras, compotas e especiarias; e vinhos base que prometem espumantes de cor brilhante, aromas delicados e bom frescor.  As 16 amostras selecionadas indicam que a vitivinicultura nacional está correspondendo às tendências de produção internacional, com a criação de produtos que, enologicamente, observam as novas tecnologias e os padrões de consumo global.

MAIS COR, TANINOS E ÁLCOOL
Tradicional, a presença de carvalho foi registrada em vários tintos, com declarada passagem por barrica, e em branco seco não aromático, já engarrafado. Entre os tintos, o destaque foi a alta intensidade de cor e qualidade dos taninos, denotando uvas de excelente maturação e potencial alcóolico, identificando-se, em alguns, estatura de vinhos de guarda. A maioria das amostras de vinhos finos superou os 13% de volume de álcool e alguns passaram de 14%.

Na seleção da safra 2012, entre os brancos, salientaram-se vinhos da uva Chardonnay , e entre os tintos, as variedades que entregam grande coloração, como Tannat,  Teroldego, Marselan, além do Cabernet Sauvignon. O Merlot, que se acredita vinho ícone da Serra Gaúcha, teve apenas uma amostra destacada.

REGIÃO NOVA
Por origem, entre os 16 vinhos da seleção há pelo menos um de uma nova região produtora do Rio Grande do Sul (Região do Alto Uruguai), representada pelo Tannat, de Antonio Dias Vinhos Finos, estabelecimento localizado em Três Palmeiras, no noroeste do Rio Grande do Sul. A Região da Serra Gaúcha arrebatou a maioria dos destaques, mas vinícolas da Região da Campanha, como Guatambu Estância do Vinho e Vinícola Almadén emplacaram uma amostra de Cabernet Sauvignon e de Tannat, respectivamente.

Selecionado na categoria vinho tinto fino seco jovem, está engarrafado e pode ser encontrado no mercado o Gamay 2012, com 11,49% de volume de álcool, da Vinícola Salton. Nesta edição, foram inscritas 387 amostras, de 70 empresas vinícolas. De cada categoria, selecionaram-se 30% de vinhos e, dentre esses, sairam os 16 vinhos mais representativos da safra 2012. A seleção dos vinhos ocorreu em agosto, com a participação de 120 enólogos experientes, que realizaram seu trabalho em 16 sessões. O público presente ao evento do dia 29 de setembro chegou a 850 pessoas.


VINHOS SELECIONADOS DA SAFRA 2012

EMPRESA
VARIEDADE
CATEGORIA
Antonio Dias Vinhos Finos Ltda
Tannat
Vinho fino tinto seco
Basso Vinhos e Espumante Ltda
Chardonnay
Vinho branco fino seco não aromático
Casa Valduga Vinhos Finos Ltda
Marselan
Vinho fino tinto seco
Cooperativa Vinícola Aurora
Cabernet Sauvignon
Vinho fino tinto seco
Cooperativa Vinícola Nova Aliança Ltda
Chardonnay
Vinho branco fino seco não aromático
Domno do Brasil Ind. Com. Bebidas Ltda
Chardonnay
Vinho base para espumante
Don Guerino
Teroldego
Vinho fino tinto seco
Guatambu Estância do Vinho
Cabernet Sauvignon
Vinho fino tinto seco
Luiz Argenta Vinhos Finos Ltda
Chardonnay
Vinho branco fino seco não aromático
Vinícola Almadén Ltda
Tannat
Vinho fino tinto seco
Vinícola Alma Única
Merlot
Vinho fino tinto seco
Vinícola Geisse Ltda
Chardonnay/Pinot Noir
Vinho base para espumante
Vinícola Góes & Venturini Ltda
Chardonnay
Vinho branco fino seco não aromático
Vinícola Miolo Ltda
Chardonnay/Pinot Noir
Vinho base para espumante
Vinícola Perini Ltda
Moscato Bianco
Vinho branco seco aromático
Vinícola Salton  S.A.
Gamay
Vinho tinto seco fino jovem

19 de set. de 2012

SETEMBRO: FEIRAS DE VINHO AGITAM HIPER E SUPERMERCADOS... NA FRANÇA

Capa da "Revista do Vinho da França" de setembro
UMA TRADIÇÃO DE 40 ANOS MOBILIZA COMÉRCIO E CONSUMIDORES E GERA FATURAMENTO DE MAIS DE 3 BILHÕES DE EUROS

Para os franceses apaixonados por vinho, o mês de setembro de cada ano reserva momentos de grande agitação. Em todo país, nas redes de supermercados, lojas de vinho, entrepostos e também nos sites de venda pela internet, se desenrolam as tradicionais feiras de vinhos. As feiras são um dos rituais anuais a que se entregam os franceses há cerca de 40 anos. Coincidindo com a vindima, é a hora de descobrir novos vinhos, suprir a adega da casa a preços apetecíveis e conseguir aquela garrafa há muito sonhada, por muito menos do que se pagaria normalmente.

PRODUTOS SELECIONADOS

Não se trata de venda de saldos, mas sim de oferta de produtos selecionados por profissionais, nas mais tradicionais regiões produtoras da França, dentro de cada segmento de preço, de “grands crus” a vinhos modestos, com preços atraentes. Os estabelecimentos reservam grandes espaços destinados às feiras. Alguns hipermercados chegam a instalar  até mil metros quadrados para o evento. Várias lojas do Carrefour destacaram profissionais para orientar os clientes, às vezes aturdidos diante das centenas de rótulos expostos. Neste ano, a rede também trouxe vitivinicultores para apresentar seus produtos. Especialistas no assunto constatam um avanço de qualidade nos vinhos expostos em 2012, com a melhoria na relação preço-qualidade.

Bandeira da cadeia de lojas de vinho Nicolas
Dentre as mais de 15 redes de super e hipermercados participantes das feiras, estão a líder Leclerc, Carrefour, Groupe Casino, Auchan, Intermarché, Franprix, Monoprix e Lidl. As ofertas também podem conferidas nas tradicionais redes de lojas de vinho Nicolas, Lavinia e outras, inclusive pela internet. Destacam-se ainda entrepostos de vinho como o 3C – Châteaux Cash and Carry, com dois depósitos nos arredores de Paris, cujo acervo é de mais de 500 mil garrafas. Esse estabelecimento organizou um catálogo por regiões, a preços com descontos equivalentes ao valor da TVA (taxa semelhante ao ICMS brasileiro), no seu período de feira, de 7 a 22 de setembro.

                                                   LISTAS DE "BARBADAS"

Encarte do Carrefour
Para ajudar os consumidores a escolher entre milhares de rótulos e preços, jornais, revistas, saites e blogs preparam listas com as “barbadas” e oportunidades da estação. É o caso de Vinogusto, existente desde 2007, com cerca de 500 mil acessos por mês – um guia de vinho e enoturismo baseado nas opiniões dos leitores e saite de marketing institucional de vinhos, turismo e gastronomia. Em suas páginas podem se encontradas as mais interessantes ofertas constantes das prateleiras das redes e lojas, com indicação de preço e informações sobre o vinho e o produtor. As feiras se estendem até meados de outubro, cada estabelecimento com períodos diferenciados de duas a quatro  semanas.

VOLUME DE VENDAS

A importância das feiras de vinhos mede-se pelo volume de vendas realizado. Em artigo na internet, a Revue du Vin de France  indica que o evento é responsável por 15% das vendas anuais da grande distribuição, chegando a 3,4 bilhões de euros em 2011.

Para a cadeia de hipermercados Leclerc, líder histórica das feiras de vinho desde 1973, o evento, em 15 dias, em 2011, representou 25% da cifra de vendas anual, excluindo vinhos de mesa e outros comuns. Isso representou 86 milhões de euros no ano passado, contou Didier Coustou, comprador de vinhos da central Leclerc, em entrevista ao site Intothewine . Segundo Didier, as redes Anchan e Carrefour venderam em período idêntico 60 milhões de euros.


Anúncio da cadeia Leclerc na internet
A cadeia Leclerc, com cerca de 500 pontos de venda, faz sua seleção de produtos entre janeiro e março, por região, denominação de origem e segmento de preço. Vinhos pré-selecionados são negociados com as vinícolas, passam por degustação às cegas e o melhor cotado é aprovado. Para 2012, profissionais da empresa degustaram 1500 amostras, aprovando 150 novos rótulos que se somaram aos já aprovados nos anos anteriores, informou Didier Coustou. Cada loja apresenta em comum 180 referências, somadas às ofertas da produção da região em que se encontra.

HISTÓRIA

O historiador Jean Baptiste Noé  diz que as feiras de vinho são uma espécie simbólica da continuação da vindima, uma herança transformada da época em que a França era majoritariamente rural. “O país se transformou, mas os franceses conservam um laço emocional com a terra e a ruralidade”, opina ele, em sua página na internet. Noé afirma que, nas feiras atuais, os tradicionais instrumentos da colheita da uva, tais como tesoura e cesta, foram substituídos pelo carrinho de supermercado. “Mas a idéia é a mesma, colher os melhores frutos, encontrar a melhor uva, ou seja, uma boa garrafa a um bom preço”, complementa.

26 de ago. de 2012

INVERNO IRREGULAR ADIANTA BROTAÇÃO DO VINHEDO NO SUL


Um inverno mesclado de frio e ondas de calor provocou a antecipação da brotação das videiras em várias regiões do Rio Grande do Sul. Isso não é totalmente estranho no estado, mas sempre deixa apreensivos os viticultores.  Eles temem o possível retorno de frio intenso com geadas em setembro, que pode danificar a ramificação nova, comprometendo a produção. Além disso, a precocidade também atropela o planejamento do trabalho no vinhedo. 

Depois de junho com fortes geadas e julho com soma de horas de frio muito superiores às dos últimos anos, o mês de agosto surpreendeu os gaúchos pela grande quantidade de dias muito quentes e pela quase ausência de frio ao longo do mês. 

Essas condições, aliadas à pouca chuva registrada no período, apressaram o ciclo da planta, cujo período de brotação, no Rio Grande do Sul, vai geralmente do fim de julho a início de outubro, conforme a variedade, explica o viticultor e enólogo Blásio Bervian.  Uvas brancas viníferas, tais como Riesling Renano e Chardonnay, e a de mesa Vênus, normalmente são de ciclo precoce.  Uvas comuns como Niágara e Bordô e algumas viníferas tintas, como Merlot e  Pinot Noir, e a branca Moscato são consideradas semi-precoces.  De ciclos tardios são a vinífera Cabernet Sauvignon e a comum Isabel.


Bervian, calcula que a brotação está adiantada uns 10 dias, em relação aos anos anteriores. 

Além da variedade, outros fatores contribuem para retardar ou deslanchar a brotação: a altitude, relacionada às temperaturas médias (em regiões mais altas, as médias de frio são mais baixas,  ao contrário das terras em altitudes menores); quantidade de luz natural, tanto solar como lunar (em invernos chuvosos e com neblina há menos luminosidade, diminuindo o estímulo aos processos vitais das plantas); e estresse hídrico, que tem consequência semelhante ao fator anterior.

No caso do Rio Grande do Sul, as condições climáticas que se verificaram de junho a agosto explicam a brotação precoce, segundo o enólogo. "Tivemos frio intenso com geadas fortes duas ou três vezes, que favoreceu a quebra de dormência, com ondas de calor logo em seguida. E com um inverno bastante seco, sem neblina e dias chuvosos, e ainda com a luz noturna da lua, foi estimulada a brotação precoce". Blásio Bervian observa que a fisiologia da videira é comandada pelas condições de clima e solo. "É um relógio interno que desperta quando as condições são atingidas".  Se geadas tivessem ocorrido também em julho e o frio se mantivesse constante e intenso no período, a brotação ocorreria mais tarde, calcula.



22 de jul. de 2012

VINHEDO DE 200 ANOS É DECLARADO PATRIMÔNIO HISTÓRICO NA FRANÇA

René Pédebernade cuida do vinhedo (Crédito: Plaimont)
O pequeno e desconhecido povoado de Sarragachies, com apenas 268 habitantes, situado entre a planície do vale do Adour e os montes pré-Pirineus, no departamento de Gers,  sudoeste francês, ganhou notoriedade nos últimos dias de junho. É lá que se encontra um dos mais antigos vinhedos do mundo, com cepas de idades entre 150 e 200 anos, que, pela sua importância excepcional, foi inscrito como monumento histórico da região.

As vinhas estão numa parcela de 20 ares (equivalente a 2 mil metros quadrados ou um quinto de um hectare) somando 600 pés, cultivados num sistema ancestral há muito desaparecido: duas plantas juntas em cada ponto e varietais mesclados entre si, em 12 linhas quadradas, de modo a permitir o trabalho de uma junta de bois nos dois sentidos das fileiras. Calcula-se que tenham sido plantadas entre 1800 e 1810.

O vinhedo contém cepas autóctones do século XIX, que sobreviveram à filoxera (praga que destruiu os vinhedos europeus e de outros países). Foram encontrados 20 varietais que eram tradicionais da região e outros sete ainda não identificados.

Desde o final dos anos 70, a  Plaimont Producteurs, um grupo de vinícolas associadas da região de Saint Mont  e adjacências, passou a apoiar a preservação dessa e de outras parcelas com vinhedos antigos, interessada na manutenção do patrimônio genético, considerado garantia da tipicidade e do futuro das apelações de origem controlada (AOC) da região dos pré-Pirineus, entre as quais, Madiran, St. Mont, e Pacherenc du Vic Bulh.

AINDA EM PRODUÇÃO

O vinhedo, há oito gerações nas mãos da mesma família, segue produzindo. A colheita, misturada com a das demais parcelas de uvas convencionais da propriedade, é entregue na Cave Cooperativa de Saint Mont. O agricultor René Pédebernade, 85 anos, continua cuidando do vinhedo antigo, embora quem administre os 12 hectares da propriedade seja o filho, Jean-Pascal, 45 anos. “A avó de minha avó já dizia que eram vinhas velhas”, afirmou René, referindo-se ao vinhedo, em entrevista à agência France Presse.

Duas plantas em cada ponto (Crédito: Plaimont)
Jean Pascal vai sugerir que a cooperativa faça um vinho especial com as uvas do vinhedo antigo, para comemorar a classificação da parcela como patrimônio histórico, embora reconheça que não será famoso, pela heterogeneidade das cepas. Segundo ele, o vinhedo, de pés-francos, sobreviveu à filoxera, em razão do solo muito arenoso, no qual a larva do inseto predador não consegue se desenvolver.

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola francês (INRA) e do Instituto Francês da Vinha e do Vinho (IFV) começaram as observações no local a partir de 1984. Especialistas em Ampelografia (estudo dos varietais), como Jean Michel Boursiquot, Thierry. Lacombe, et Olivier Yobrégat, experts mundialmente reconhecidos, estudam as videiras. Os sete varietais desconhecidos foram batizados como Pédebernade 1, 2, ... 7, em homenagem ao proprietário da terra.

Em outros vinhedos da região, os pesquisadores encontraram variedades de uva também não perfeitamente descritas, nominadas Dubosc 1 e 2, Arrat, Cauzette e uma tipicamente lambrusca.No trabalho de identificação, os pesquisadores usam como referência sete grupos de varietais tradicionais do sudoeste francês, como Tannat, Courbu, Cabernet Franc, Cmaraou Noir, Gros Manseng, Petit Verdot e Cruchen Blanc. Até agora, verificaram que o Arrat não mostra semelhança genética com nenhum varietal da região, restando sua origem um mistério.

Baseados em análise de DNA, os cientistas descrevem a região do vale do Adour como berço  de varietais como o Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, que se espalharam para outras regiões da França, ao longo do tempo, e paraíso das lambruscas selvagens, que crescem apoiadas em outras árvores.

A Plaimont Producteurs criou em 2002 um viveiro de varietais da região de Saint Mont, reunindo clones de 40 varietais diferentes. Até 2016, espera conseguir o registro de clones de varietais como Tannat, Fer Servadu, Cabernet Sauvignon e dos desconhecidos Dubosc 1 e 2.
Região de atuação da Plaimont Producteurs, onde Sarragachies está situada (Crédito: Plaimont)

7 de jun. de 2012

ARGENTINA CRIA PROGRAMA PARA AUMENTAR O CONSUMO DE VINHO EM RESTAURANTES



Em tempos de pedido de salvaguardas, no Brasil, contra vinhos estrangeiros, para aumentar o mercado dos nacionais, a Argentina reabilita o "vinho para todos", uma política dos anos 1970, para incentivar o consumo do produto local, em bares e restaurantes.

O chamado “Vinho turista”, promovido pelo Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV) argentino, deverá ter um preço máximo de 20 pesos (genérico) e 25 pesos (varietal),por garrafa, algo equivalente a R$10,00 e R$17,50, respectivamente. Pelo programa, amparado em lei, os restaurantes e bares de todo o país, mesmo os mais requintados, serão obrigados a manter em suas cartas de bebidas pelo menos um tipo de produto dessa categoria.

Logotipo da campanha. Fonte: INV
O valor foi fixado após entendimentos com representantes do setor gastronômico, garantindo uma margem de 120% de lucro aos estabelecimentos, segundo o jornal Diário de Cuyo, da província de San Juan. 

Para evitar que bebidas de baixa qualidade entrem na lista, os vinhos candidatos a participar do programa passarão por análise enológica e sensorial e serão certificados pelos conselhos consultivos regionais do INV, devendo obter no mínimo 80 pontos. 

Será obrigatório que os rótulos contenham o logotipo “Vinho argentino – bebida nacional”, a legenda “Vinho turista” ou “Vinho turista varietal”, o nome da casa elaboradora, a região de origem e a data limite de consumo preferencial. Cada vinícola poderá destinar anualmente até 2 milhões de litros de vinho nessa modalidade.

Alguns produtores, citados em matéria sobre o assunto, na publicação eletrônica Área del Vino, acreditam que a medida ajudará as vinícolas que não tem acesso fácil ao setor gastronômico e agitará o estagnado panorama de consumo de vinhos de médio e baixo preço na Argentina. Eles sustentam que as pessoas deixaram de tomar vinho nos restaurantes porque a maioria dos produtos oferecidos nos estabelecimentos é muito caro.

Mas nem tudo é unanimidade em relação a essa política. Ricardo Santos, enólogo e proprietário da vinícola Cuchillas de Lunlunta, de Lujan de Cuyo, reconhecido nacionalmente pelo Malbec que leva o seu nome no rótulo, é cético em relação ao programa, que segundo ele, não deu os resultados esperados em 1975, quando foi lançado, em razão da inflação, que aumentava os custos dos serviços nos restaurantes, fazendo com os que proprietários sofressem prejuízos.

Em artigo na publicação Área del Vino, Ricardo Santos refuta o termo “vinho turista”. Entende que o turista contemporâneo está em busca de origem e  não necessariamente vinho barato, e que o consumo tem outra conotação atualmente (se consome por prazer e não por tradição).  Aponta para a existência de uma grande diversidade de produtores de vinho e de estabelecimentos gastronômicos, a atender diferentes possibilidades de poder aquisitivo. Além disso, considera que a qualidade do vinho se reflete em altos custos de elaboração e transporte e, para os restaurantes, em custos de serviço, duvidando, por isso, da operacionalidade do programa.

Cartaz da Festa Nacional do Vinho 2012, em Mendoza, evocando as  sete  províncias  produtoras

31 de mai. de 2012

FEIRA DO DIA ESTADUAL DO VINHO INICIA EM PORTO ALEGRE



A feira de vinhos que marca o Dia Estadual do Vinho,  comemorado no Rio Grande do do Sul em 1º de junho, abriu na noite de ontem, numa barraca de lona, ao lado do centro cultural do Gasômetro, em Porto Alegre. Cerca de 30 vinícolas, entre pequenas e desconhecidas e as maiores e tradicionais Cooperativa Aurora, Salton e Miolo, expõem seus produtos, a preços com desconto. Prestigiando a abertura do evento, estavam presentes os integrantes da Irmandade do Vinho, de proprietários de restaurantes italianos da cidade, e o presidente da Miolo Wines S.A., Adriano Miolo.
 
PRODUÇÃO CEDE AO GOSTO POPULAR
O que se percebe ao longo dos anos é que a feira não consegue deslanchar e se mantém com a média de 20 a 30 vinícolas, que é muito pouco representativo do universo de mais de 300 vinícolas existentes só no Rio Grande do Sul. Falta de apoio das entidades maiores da indústria do vinho? Desconsideração à importância de uma feira de caráter aberto, onde o ingresso é gratuito?


Além disso, após uma rápida passada pelos estandes, o que se pode comprovar é que a produção de vinhos de entrada cedeu realmente ao gosto popular. Os vinhos básicos estão cada vez mais muito adocicados. Acabou-se o pudor de anos atrás, e alguns rótulos já exibem em primeiro plano a expressão "cabernet sauvignon suave", por exemplo. Outros, de categoria premium, também estão caminhando nessa direção.

Exceções presentes na feira, alguns com oferta de degustação, outros não, são os vinhos na faixa de R$35,00 a R$50,00, das vinícolas Torcelo, Terragnolo, Valmarino e Dom Eliziario. Vinhos diferenciados, de pequena produção, que justificariam o valor, defendem os proprietários.

EDUCAÇÃO PARA O VINHO
Chama a atenção também a falta de eventos paralelos de educação para o vinho, que deveriam ser constantes e que já ocorreram em edições anteriores da feira, tais como cursos de degustação, por exemplo. Com atividades dessa natureza se qualificaria a apreciação do vinho e se construiriam consumidores mais conscientes e também mais preparados, por exemplo, para se iniciarem em produtos de gama superior.

A feira prossegue até 3 de junho com eventos como a encenação da chegada dos imigrantes italianos no cais do porto e a bênção da produção de vinhos de 2012 pelo bispo de Porto Alegre.

5 de abr. de 2012

“MOSCATO MANIA” NOS ESTADOS UNIDOS

UMA NOVA GERAÇÃO CONSAGRA O TIPO DOCE COMO ENTRADA AO MUNDO DO VINHO

Uva moscato. Imagem: Dolce Italia
O mercado vitrine do mundo – Estados Unidos – está vivendo desde 2008 uma explosão de vendas de vinhos suaves, especialmente brancos, mas também tintos, em escala jamais verificada antes. A onda atual é liderada por vinhos de uva Moscato, doces, levemente frisantes ou espumantes. O público adepto é formado por jovens consumidores urbanos, os chamados “Millennials”, grupo de idade entre 21 e 34 anos, e tem forte ancoragem nos segmentos afroamericano, mulheres e menor renda. Para essa geração, o Moscato ganhou o signo popular de “vinho alegre,  vinho de celebração”.

A nova tendência de consumo foi revelada em relatórios do “Wine Market Council” e da consultora de mercados “Nielsen”, divulgados no início do ano corrente. Segundo os dados, as vendas de Moscato cresceram 200% entre 2009 e 2011. Só em 2011, o crescimento foi de 78%, representando um faturamento de 300 milhões de dólares . O varietal sozinho abarca 3,6 % do mercado de vinhos de mesa, e é neste momento o mais crescente em vendas, dentre os vinhos brancos (embora o Chardonnay ainda domine a cena, com 20% do mercado, mas com crescimento de apenas 1%).

 Na interpretação de comentaristas da mídia americana, há um conjunto de fatores  que explicam a tendência: uma inclinação natural para bebidas adocicadas de gerações que cresceram sob o domínio do doce na alimentação; a influência de astros do hip-hop, incluindo menções do vinho em canções e eventos; o preço acessível da bebida (menos de 10 dólares); o baixo teor alcóolico (em média 9% ou menos, enquanto outros vinhos americanos chegam facilmente a l4% de álcool); o aroma fresco, frutado e floral, evocando lembranças familiares; e uma leve estabilização de preços nessa área de bebidas, nos últimos anos. Antes era um vinho de sobremesa, agora é um vinho para qualquer momento, para horror dos puristas.

A “Moscato Mania”  é considerada o maior fenômeno no mundo dos negócios do vinho nos Estados Unidos, desde a moda Zinfandel branco, dos anos 90 (quando até uma cooperativa vinícola gaúcha criou uma marca e a exportou aos Estados Unidos e agora também vai aproveitar essa onda). Ciclos de consumo similares nesse país ocorreram nos anos 1970, com os vinhos rosés portugueses; e nos anos 1980, com os Lambruscos italianos. Mais recentemente, em decorrência da exibição do filme Sideways, houve uma pequena explosão de vendas de vinhos do varietal Pinot Noir, a partir de 2005.

ESTILO FRISANTE E ESPUMANTE

Paisagem de Asti, Itália
O estilo de vinho que conquistou o público dos Estados Unidos é inspirado no Moscato d’Asti italiano (Piemonte), que, na origem, é elaborado com uvas Moscato di Canelli (ou Moscato Bianco), é levemente frisante, frutado, com baixo teor de açúcar residual e nível de álcool de 5,5%; e nos espumantes elaborados pelo método Asti, com até 9% de álcool (como os espumantes moscatéis brasileiros).

Mas, diferentemente dos vinhos importados da Itália, com denominação de origem controlada e garantida, como o Moscato d’Asti, os vinhos Moscato elaborados nos Estados Unidos utilizam a variedade mais plantada na Califórnia, a Moscato de Alexandria, considerada menos fina. Além disso, em muitas avaliações de vinhos Moscato populares, publicadas pela mídia americana, há menções a vinhos muito doces, que parecem “xaropes”, no dizer dos críticos. Segundo o colunista de vinhos Robert Haynes-Peterson, que escreve para várias publicações americanas, “a maioria das marcas mais populares são apenas vinhos simples, doces e frisantes”.

FÁCIL DE DIZER, BEBER E COMPRAR

Líder de vendas  nos EUA
Os vinhos suaves encontraram o seu público especialmente entre consumidores abaixo dos 34 anos, a chamada Geração Millennial. A metade do atual consumo de Moscato é devido ao grupo, segundo “Nielsen” e “Wine Council Market”. Junto com a Geração X (35-46 anos), estão impulsionando o crescimento do mercado de vinho nos Estados Unidos, nos últimos anos, é o que mostram as pesquisas.

Bill Easton, produtor da Terre Rouge Easton, da Califórnia, que já teve vinhos avaliados em até 94 pontos pelo crítico Robert Parker, tem uma definição simples para o fenômeno. Em entrevista à Agência France Presse, afirmou: “O motivo pelo qual o Moscato tornou-se popular é o mesmo pelo qual o Zinfandel tornou-se popular há 20 anos: porque é doce. Consumidores americanos de vinho inexperientes gostam de doçura. O paladar europeu aprecia a acidez. O paladar americano é voltado para o doce”.

Já para Lisa Carley, colunista e consultora de vinhos da publicação eletrônica New York Wine Examiner, o crescimento de vendas do Moscato e de outros vinhos tintos suaves “parece indicar que os americanos estão mais confortáveis com o vinho em geral. Por isso, eles estão bebendo o que eles gostam e não o que outros acham que eles deveriam beber”.

Segundo John Jordan, gerente de uma vinícola californiana, a Geração Millennials não está interessada no que os críticos ou experts estão dizendo, mas apenas na opinião de seus pares. “Eles querem ver e ouvir o que pessoas como eles pensam sobre o assunto ”, diz, em entrevista à colunista e consultora de vinhos Mary Gorman-Mac Adams. Questões como pontuações ou origem não interessam.

A popularidade conquistada pelo Moscato é devida ao gosto simples e agradável desse vinho , diz o colunista Robert Haynes-Peterson. “Os aromas e sabores do Moscato apresentam elementos fáceis de agradar, como flores, mel, frutas tropicais, citros, lichia, melão, maçã e pêssego, provocando lembranças familiares desde logo pela doçura marcante. Moscato é fácil de dizer, beber e comprar”, resume.

A INFLUENCIA DO HIP HOP

Marca alavancada pelo rapper Kanie West
O Moscato deve bastante de sua popularidade nos Estados Unidos ao mundo hip hop afroamericano.  De repente, rappers começaram a passar a mensagem “beba Moscato e fique legal”, mencionando o vinho em eventos, composições e videos. Logo, a bebida passou a ter destaque em clubes noturnos de hip hop e rhythm & blues, sendo até oferecido, em alguns clubes, gratuitamente às mulheres, em festas tipo “elas não pagam”.

Em 2005, Kanie West deu uma festa servindo um vinho importado italiano, o “Saracco Moscato d”Asti”, alavancando a marca. A cantora Lil’ Kim incluiu uma passagem envolvendo Moscato na letra de “Lighters Up”, ainda em 2005. Também entraram nesse caminho artistas como Soulja Boy, Gucci Mane, Rosco,  Dash e Waka Flocka Flame. Em 2009, Trey Songz e Drake  cantaram “I invented sex”, que tem um trecho assim: “É uma celebração/ clap, clap, bravo/lagosta e camarão/ e uma garrafa de Moscato”.

A glorificação do varietal veio no começo de 2011, com o lançamento do álbum “Long Term Mentality”, no qual Ab Soul  e Kendrick Lamar cantam “Moscato”, uma canção que diz: “quando as coisas estão difíceis de engulir/ precisamos de uma garrafa de moscato”.

Alguns analistas lembram que anos atrás as preferências de astros do hip hop elevaram, nos Estados Unidos, as vendas do champagne Cristal, da francesa Louis Roederer, a qual acabou embaraçada com a associação do hip hop à sua marca. Na fase atual, refletindo o tempo de dificuldades econômicas pelas quais o país vem passando, parece que, em se tratando de vinho, trocaram o caro pelo mais acessível.

GIGANTES DO MERCADO DOMINAM

O primeiro sinal da explosão de consumo foi registrado em 2008, quando o conglomerado de vinhos Gallo percebendo o apelo dos consumidores por um vinho de corpo leve e doce, lançou no mercado seu primeiro Moscato, sob a marca “Barefoot Cellars Moscato”, que logo tornou-se líder nesse segmento varietal. Depois disso, a empresa lançou outras sete diferentes marcas de Moscato.

A maior fatia de mercado do Moscato (43%) pertence à marca “Barefoot”, do grupo Gallo, enquanto o grupo Trinchero, com a marca  “Sutter Home” , detém outros 27%. Dezenas de produtores de massa estão vendendo Moscato, entre os quais os conglomerados Constellation (“Robert Mondavi” e “Woodbridge”) e Wine Group (“Cupcake”). A australiana  Casella, que lançou “Yellow Tail Moscato” apenas em abril do ano passado, vendeu 500 mil caixas em 2011.

Marca líder da Constellation
Para suprir o mercado, produtores e importadores americanos correm o mundo atrás de vinho desse varietal. Vinícolas da Califórnia estão importando Moscato a granel da Itália, Espanha, Chile e Argentina. Em 2011, a Argentina vendeu para grandes importadores dos Estados Unidos 35 milhões de litros de Moscatel Rosado e Moscatel de Alexandria.  Como resultado, depois do Malbec, o varietal que ocupa o segundo lugar nas exportações argentinas passou a ser o Moscato. Comenta-se também que, para manter a produção e o preço, o grupo Gallo passou a adicionar a alguns de seus Moscatos, parcelas de vinho da uva branca French Colombard, mais comum.

A agitação chegou também aos produtores de uva. Relatórios de entidades da categoria indicam que a implantação de novos vinhedos de moscato deve crescer mais de 130 % até 2015 nos Estados Unidos. Apenas na Califórnia, em 2011, 25% do total de vendas de mudas foram do varietal Moscato, o que representou 40% entre as mudas de varietais brancos vendidos.

24 de fev. de 2012

VINHO RIESLING RENANO RESSURGE EM COLÔNIA DE IMIGRAÇÃO ALEMÃ

INSPIRADO NOS GRANDES BRANCOS CLÁSSICOS

Um vinho 100% varietal de autênticas uvas Riesling Renano está sendo produzido no coração da zona de imigração alemã do Rio Grande do Sul.  O líder desse empreendimento é Rolf Weinzierle, um engenheiro agrônomo de Stuttgart, cuja inspiração são os grandes vinhos alemães do Reno e Mosela. Ele encontrou na localidade de Nove Colônias, interior de Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, as condições para elaborar o que é considerado um clássico dentre os vinhos brancos. 

Rolf Weizierle
A Weingut Weinzierle (Vinícola Weinzierle) iniciou em 2005, quando Rolf e sua esposa Ruth compraram uma área de terras na região. Ele estava determinado a provar que um alemão também poderia fazer vinho no Brasil, onde a atividade vitivinícola é marcadamente liderada pelos descendentes de imigrantes italianos. Nas terras em que seus patrícios imigrantes se instalaram há quase 200 anos, no Sul do Brasil, plantou o vinhedo e construiu a sua residência.Coincidência ou não, o seu nome de família significa, em dialeto alemão, “viticultor”. 

Trabalhador determinado, mas cauteloso,  no final do ano passado, começou a busca de mercado para as 12 mil garrafas produzidas em 2011, nas versões seco e meio-seco. A safra de 2010, com apenas 3 mil garrafas, meio-seco, foi discretamente comercializada pelo estabelecimento onde Rolf contratou a vinificação. Surpreendente pelo aroma cítrico e floral, que se confirma em boca,  tem o doce do açúcar residual deliciosamente cortado pela acidez em equilíbrio, o que o torna um vinho agradável e refrescante.



Já a safra 2011 trouxe o tipo seco, de cor amarelo claro e reflexos esverdeados, com aroma e boca intensos de lima e limão, toque mineral e grande frescor propiciado pela acidez perfeitamente integrada. Essa versão representa cerca de 40% da produção, mantendo-se o restante na versão meio-seco, de acordo com o paladar de preferência da maioria dos consumidores no país, pondera o vitivinicultor.

Rolf quer marcar a sua produção pela autenticidade e qualidade, tal como os melhores vinhos brancos alemães desse varietal. Ele acredita que há grande potencial para o mercado de vinho branco no Brasil. Já  tem planos e lugar preparado para construir a sua própria vinícola, num declive do terreno, a fim de realizar parte dos processos de vinificação de forma natural, aproveitando a força da gravidade.

A variedade Riesling Renano é pouco produzida no Brasil e os vinhos exclusivos dessa cepa são praticamente inexistentes atualmente. São encontrados apenas em cortes com outras uvas. De acordo com dados da Uvibra/Embrapa Uva e Vinho, em 2010 foram processadas pela indústria apenas cerca de 98 mil quilos de uvas desse varietal no país, contra 351 mil quilos de uvas Sauvignon Blanc, ou 8 milhões 600 mil quilos de uvas Moscato, por exemplo.




Em Nove Colônias, Rolf  conquistou o respeito, a admiração e a amizade dos vizinhos agricultores. Transformou campos abandonados, cheios de pedras e banhados em uma propriedade de sonho, restaurando uma antiga casa em estilo típico enxaimel dos anteriores proprietários, descendentes de etnia alemã. Construiu a ampla residência da família, onde passa cerca de seis meses do ano, entre novembro e maio. No outro período, trabalha na Alemanha, onde é grande produtor de morangos.

Os vinhedos, em espaldeira, foram implantados inicialmente em apenas um hectare, utilizando clones alemães de uvas Riesling Renano de alta qualidade, em porta-enxertos produzidos no Brasil. Atualmente somam 5 hectares. Ocupam uma encosta, a  600 metros de altitude, com ótima exposição solar e ventos regulares, que, segundo Rolf, contribuem para a sanidade das uvas.

A colheita da safra deste ano ocorreu em mutirão de dois dias, no início de fevereiro, reunindo cerca de 60 pessoas, entre vizinhos, amigos e convidados. Em comum, praticamente todos conversavam entre si em alemão ou dialeto entremeado de palavras em português, como é comum na região, enquanto faziam o corte dos cachos e separavam para as caixas apenas as uvas sãs. Por sua vez, Rolf percorria as pontas das linhas do vinhedo, ou levando um barrilete de água fresca para os trabalhadores, ou acompanhando o carregamento das caixas no caminhão que as levaria para a vinificação, ou conversando pelo celular com o enólogo, na vínicola.










A fermentação do mosto de uvas é feita a frio, a baixas temperaturas, consumindo cerca de 20 dias, explica o enólogo Blásio Berwian, brasileiro da região, mas com formação profissional na Alemanha e experiência nesse país e na Suíça. O processo, aliado a leveduras aptas a trabalhar no frio, permite que se intensifiquem os aromas e gostos frutados no vinho e se obtenha um produto de alta qualidade. A vinificação respeita o estilo dos famosos Rieslings alemães e teve a supervisão inicial do enólogo e vitivinicultor Sebastian Schneider, que veio da Alemanha, especialmente para esse fim.

Rolf e Ruth Weinzierle
A safra 2012 alcançou 31 toneladas de uvas, com grau 100 na escala alemã Oechsle ( equivalente a 18 graus Babo), o que segundo Rolf, a coloca entre as uvas aptas a produzir vinhos da categoria alemã “Qualitätswein mit Prädikat – Qmp (Vinhos de Qualidade com Atributo), da classe Spätlese (de colheita mais tardia e de paladar mais intenso, não necessariamente doce, produzindo vinhos maduros e equilibrados).

Serviço:
Riesling Renano Weingut Weinzierle 2011 Seco
11 % vol. álcool
Temperatura de consumo: entre 7º e 12 º C
Harmoniza com antepastos leves, peixes, saladas e queijos suaves

Onde comprar:
- Miss Gayah
Fone: (54) 3281- 4177
Av. 15 de Novembro, 1802
Nova Petrópolis- RS


- Em Porto Alegre
Tel (51) 9968-2349


E-mail: ww@vinicolaalema.com.br
Site. www.vinicolaalema-weinzierle.com.br