19 de jun de 2011

O selo fiscal, o mercado e o consumo de vinho

                                                                                                                                                                             
Como efeito do selo, importados de baixo preço podem ceder espaço no mercado

Quando se lançou a exigência do selo fiscal aos vinhos vendidos no mercado brasileiro, muito se falou em contenção do contrabando, que promovia concorrência ilegal, e em garantia de qualidade da bebida nacional, contra possíveis falsificações. Em realidade, o que estariam pretendendo os artífices da medida era criar um mecanismo para afastar a concorrência dos vinhos estrangeiros de baixo preço, especialmente dos originários da Argentina e do Chile. Esse mercado de vinhos varietais de baixo preço é um mercado em que a indústria nacional não consegue, por ora, concorrer com os importados, por falta de volume. 

A exigência do selo fiscal, de fato, retraiu as importações a partir de 2011, e resultou, concretamente, em um novo elemento a agregar-se ao custo do produto para os importadores, o que deverá refletir-se mais adiante nos preços de prateleira. A determinação de implantar o selo fiscal aos vinhos nacionais e estrangeiros teve como efeito, entre 2009 e 2010, um espetacular aumento preventivo da importação de vinhos estrangeiros, especialmente chilenos e argentinos, que inundaram e ainda inundam as gôndolas dos supermercados brasileiros.

Até o final do ano, o atacado e o varejo terão de livrar-se desses estoques importados sem a estampilha oficial, pois a partir de 1º de janeiro de 2012, todas as garrafas de vinho expostas à venda deverão estar seladas. As novas importações, em 2011, já estão vindo com o selo, colocado na chegada às aduanas brasileiras, de responsabilidade dos importadores. Desde junho, pelo menos os vinhos argentinos são despachados selados já na origem, por acordo de governos.

Nesse intervalo de tempo, a indústria vinícola nacional aumentou e diversificou a sua produção e intensificou as campanhas e eventos de promoção de consumo, por meio da sua entidade oficial. Os setores produtivos também se beneficiam do verdadeiro boom de consumo que se verifica no Brasil, com o aumento do poder aquisitivo das classes C e D e E, numa realidade em que vinhos e espumantes representam objeto de status e de desejo para os novos consumidores.

Mas, em relação ao consumo, a análise das importações originárias dos países vizinhos até o momento está revelando uma tendência interessante. Os argentinos reconhecem a retração nas importações brasileiras - no comparativo 2010-2011, entre janeiro e maio cairam quase 9% em volume, mas em valor aumentaram quase 4%, segundo notícia de 9 de junho da publicação eletrônica Dia a Dia del Vino, de Mendoza. Para o Chile, no mesmo período, a situação foi pior: queda de 16% em volume e 2% em valor. Mas a partir de maio, começou uma recuperação em valor para os dois países, pois 70% das vendas para o Brasil são feitas no inverno, entre abril e agosto.

E o que está se verificando, segundo os bodegueiros argentinos citados na notícia, é que o preço médio dos vinhos vendidos ao Brasil vem crescendo ano a ano. Os segmentos de preços baixos estariam perdendo volume, mas a faixa de preços médio-alto, de 26 a 35 dólares a caixa de vinho estaria muito ativa. Eles também consideram significativa a movimentação de vendas de vinho da faixa entre 39 e 60 dólares a caixa. Concluem que o brasileiro está aprendendo a desfrutar de vinhos mais complexos e aceitando pagar mais por vinhos de maior qualidade. Se essa tendência realmente  se confirmar, então, com ou sem selo fiscal, dentro de um prazo ainda não conhecido, o mercado de vinhos varietais de baixo preço poderia finalmente passar ao domínio da produção nacional.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente matéria, abordando um tema
bastante importante. A questão que
agrega custo ao produto nacional.Parabéns..