12 de set. de 2010

Atlas francês mostra rota do Vale dos Vinhedos

Mal entrou em venda em julho último, o "Atlas Mondial des Vins", dos renomados geógrafos franceses Raphaël Schirmer e Hélène Velasco-Graciet, foi aclamado como uma obra de referência para quem se interessa pelo mundo dos vinhos.

A riqueza do livro de 80 páginas está em mesclar texto, e especialmente mapas e infográficos em profusão, o que permite uma ampla visão do tema, a começar dos primeiros registros históricos do vinho até a complexa realidade atual.

Numa perspectiva histórica, o Atlas mostra que o vinho acompanhou a expansão das civilizações pelas regiões mediterrâneas, desde cerca de 5 mil anos antes de Cristo. E que, ao disseminar-se, permitiu a construção da hegemonia européia e o estabelecimento dos primeiros critérios de qualidade de produção, já no século XX, por meio das denominações de origem.

Um grande espaço da obra é reservado para as questões da realidade atual.  Como, por exemplo,  pelos ventos da globalização, a nova configuração mundial do vinho afrontou a dominação européia,  determinou a mundialização dos vinhedos e o crescimento da produção dos vinhos dos novos países  (vinhos do Novo Mundo). Os geógrafos enfocam as mudanças  que influenciam os atores da produção e  o consumo e detalham as novas dinâmicas geográficas, sociais e econômicas. É o fim de uma ordem consagrada? A pergunta está na capa do livro.


        Rota do Vale dos Vinhedos


Fenômeno do século XX, o vinho tornou-se também pretexto para uma experiência turística. Em duas páginas sobre o enoturismo, o livro mostra, como exemplo, uma rota de vinhos no Brasil.

Embora não esteja nominado oficialmente, a imagem retrata o Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, no estado do Rio Grande do Sul, com pontos vermelhos indicando as vinícolas e verdes, a infraestrutura hoteleira. Nas mesmas páginas, os geógrafos também destacam rotas do vinho na Espanha, França (Alsacia) e Itália (Toscana).

7 de set. de 2010


UM MAR DE VINHOS NAS PRATELEIRAS DOS SUPERMERCADOS 

 


Nunca houve tanta oferta de vinho nos supermercados brasileiros como neste ano de 2010.Há um "mar" de vinhos argentinos e chilenos nas prateleiras, disputando a preferência dos consumidores. A produção brasileira não ficou para trás e a listagem dos nacionais também se ampliou sensivelmente.

É tanto vinho que sua apresentação desbordou as tradicionais áreas delimitadas a essa bebida. Nos supermercados maiores, novas ilhas de vinho surgiram nos corredores, como que sugerindo seu consumo em harmonização com alimentos dispostos em setores próximos, como as boutiques de carnes, peixaria, fiambres e padaria.

As grandes redes de supermercados também passaram a importar diretamente algumas marcas notórias, para não ficar na dependência de outras importadoras. Parece que o anúncio da obrigatoriedade do selo fiscal, gestado pela indústria de vinhos brasileira e a Receita Federal, gerou essa contramanobra do varejo. A verdade é que há muito vinho argentino e chileno, não apenas para 2010, como também para 2011, quando começa a valer a exigência do selo para novas importações. Mas até o fim 2011, o comércio poderá  vender estoques de vinho importado anteriormente sem o selo.

Salta aos olhos que o consumo de vinho está se elevando sensivelmente, especialmente nos estados do sul e Sudeste. No Sul, o frio do inverno ajuda essa tendência. Em todo o país, a elevação da renda de amplas camadas da população também está fazendo com que se interessem pelo vinho.


Os novos consumidores brasileiros estão entrando no mundo do vinho pela mão de argentinos e chilenos
Os preços dos importados também são determinantes. Há uma grande quantidade e variedade de argentinos e chilenos ofertada a preços entre R$15,00 e R$30,00, cujas garrafas não param nas prateleiras. São vinhos que não podem ser classificados de baixa qualidade, ao contrário do que dizem alguns dirigentes de entidades da indústria brasileira.

Esses vinhos seguem um padrão de consumo globalizado. Fáceis de beber ou "redondos", taninos suaves, frutados, cores intensas - os tintos, a grande maioria em oferta. Agradam a quase todo mundo. Maciçamente varietais Cabernet Sauvignon, Malbec, Carmenère. Em menor posição, Merlot, Sirah, raros Pinot Noir. Entre os brancos, que não são muitos, predomina Chardonnay,  alguns Torrontés e raros Sauvignon Blanc.

Pela mão dos argentinos e chilenos, uma geração nova que busca algum tipo de experência hedonística ou, quem sabe, status por meio do vinho, vai fazendo sua introdução e seu aprendizado no mundo dos varietais.

Pena, porque está sendo habituada  a um estilo de vinhos às vezes muito pesados, a maioria tendentes ao suave, seja pelo açúcar residual, seja pela alta graduação alcoólica, que aumenta essa sensação de doçura.

Uma rápida verificação nos rótulos permite constatar que a maioria desses vinhos tem volumes alcoólicos absurdamente altos, entre 14 e 14,5 º e até 15º GL.

Grande parte dos consumidores nem está atenta a isso.No momento em que cresce o interesse, o vinho corrente mais sedutor tem cerca de 30% a  mais de álcool do que era habitual até dez anos atrás, quando a média do que se encontrava no mercado oscilava entre 12 e 13º GL.

19 de ago. de 2010

Por que não a transparência nos rótulos ? (2)

 No afã de ampliar suas vendas, a indústria mundial de vinhos  modelou  um tipo de vinho para consumo de massa, fácil de beber, e depois criou um factóide, uma lenda de marketing, apresentando esse tipo de vinho como aquele que os consumidores desejam. Vinhos de produção controlada, de alta escala, uniformes, de venda induzida pela propaganda e retorno rápido.

Isso começou nos Estados Unidos e Austrália, alcançou países europeus, depois Argentina e Chile e chegou também ao "Brazil".
Esses vinhos tem uma boa cor, textura tânica e são agradáveis de beber, isto é, tem pouca acidez - são "docinhos".

Os mercados brasileiros estão inundados desses vinhos, vindos da Argentina e do Chile, mas também produzidos no Brasil, seguindo a tendência mundial. É o caso da maioria dos "reservas" e "reservados" chilenos e argentinos.

Grande parte são vinhos demi-sec ou meio-secos, portanto vinhos com açúcar residual que pode ir de 5,1 gramas até 20 gramas de açúcar por litro (pela legislação brasileira), mas você só vai descobrir que é meio-seco se ler o contra-rótulo com lentes de aumento.  Ou não vai descobrir, porque a informação foi omitida, fato muito comum. O rótulo principal vai indicar apenas "vinho fino tinto", por exemplo.

Assim é o "Reservado" da chilena Concha y Toro, na faixa dos R$16,00. O contra-rótulo, em letras microscópicas, corpo tamanho 5 ou 6 vai informar, lá pela terceira ou quarta linha, em meio a uma sequência de importadores do produto em vários países da América Latina, que é um vinho meio-seco.Mas só descobre quem lançar mão de uma lupa. Até o próprio Concha y Toro, varietal Pinot Noir, um vinho que beira os R$30,00 é um meio-seco, está lá no contra-rótulo.


Da mesma forma o vinho argentino Etchard Privado, varietal Cabernet Sauvignon, safra 2009, cerca de R$18,00 a garrafa, foi vendido em uma rede local de supermercados (Rio Grande do Sul), inicialmente sem referência, até que nos mês em curso apareceu com uma pequena etiqueta adesiva no contra-rótulo, indicando tratar-se de um  demi-sec.

Muitos vinhos brasileiros de preço médio também abriram mão da acidez, restando "docinhos", fáceis de beber, para acompanhar a concorrência chileno-argentina. Parece que as últimas colheitas tem sido feitas quando as uvas ultrapassaram o grau máximo de maturação, gerando vinhos pesados, quase sem acidez. Ou...Embora não se saiba como, ainda se enquadram na categoria secos.
 
Essa realidade de mercado não ajuda a  criação de uma cultura do vinho no Brasil. Uma educação para o consumo de vinho se faz com informação correta em todos os níveis, especialmente no rótulo do produto.



16 de ago. de 2010

  
Depois do selo fiscal, por que não a transparência nos rótulos?


O selo fiscal, a ser implementado até novembro de 2010, saudado pela mídia corrente e pelos dirigentes da indústria vinícola como garantidor de qualidade do vinho brasileiro, poderia ser seguido de outra iniciativa já reclamada por enófilos no primeiro mundo: a transparência das informações contidas nos rótulos dos vinhos, a qual, esta sim, poderia dar mais segurança aos consumidores.

Nos Estados Unidos, o conhecido cronista de vinhos Matt Kramer, autor de livros emblemáticos sobre o assunto e colunista da revista Wine Spectator, lançou no começo de maio mais uma de suas campanhas, na série Manifesto 2010.  "Tell us the truth" ou "digam-nos a verdade", é o desafio que lança aos produtores de vinho estadunidenses.

Lá, a produção massiva, os avanços tecnológicos e os permissivos legais resultam em práticas admitidas porém não declaradas, tais como:
  • acréscimo de água para reduzir o alto teor alcóolico de vinhos decorrentes de uvas colhidas em sobrematuridade; 
  • concentração do mosto (retirada de água por processos mecânicos) em colheitas diluídas por excesso de chuvas, por exemplo; 
  • rebaixamento do grau alcóolico (retirada de álcool por processos mecânicos, tais como osmose inversa ou cones de filtração); 
  • acréscimo de aditivos para melhorar a cor ou aromas dos vinhos; melhoria da acidez, com adição de ácido cítrico, málico ou tartárico, para compensar vinhos de colheitas sobremaduras que rebaixam a acidez; e adições de taninos.
Kramer também demanda que os rótulos contenham informações tais como a quantidade real de acúcar residual contida no vinho. A legislação brasileira prevê que um vinho para ser considerado seco deve ter no máximo 5 gramas de açúcar por litro. No entanto, fica-se em dúvida, diante de vinhos finos ditos secos "tão facilzinhos de beber" encontrados em lojas e grande distribuição.

Uma rápida análise dos rótulos e contra-rótulos dos vinhos finos brasileiros encontrados nas prateleiras dos supermercados e casas de vinhos mostra que, além de descrições das características organolépticas do produto e de sugestões de acompanhamento e consumo,  pouca ou nenhuma informação é acregada ao mínimo exigido pela legislação.

Uma exceção é o caso da vinícola Don Abel, do Rio Grande do Sul,  que imprimiu nos rótulos dos seus vinhos premium carimbos enunciadores com as expressões: "sem passagem pelo carvalho" e "sem adição de açúcar - sem chaptalização". Isso é realmente um progresso para expansão de uma verdadeira cultura do vinho no Brasil.


Aliás, as referências à "passagem pelo carvalho" podem permitir conclusões duvidosas. O que isso quer dizer? Que lascas, ripas ou pó de carvalho foram colocados nos tanques onde fermentou ou repousou o vinho antes de ser engarrafado? Ou que o vinho realmente estagiou algum tempo em verdadeiras barricas de carvalho? Essa expressão camufla a realidade. O consumidor é  levado a acreditar que está diante de um vinho superior, que vale a pena comprar, pois teria agregado uma qualidade que somente a barrica confere.  Não é educativo, muito menos honesto.

Além disso, o estágio em barricas de carvalho não indica necessariamente qualidade do vinho. Indica apenas um estilo  de vinho. Os consumidores dos Estados Unidos, por exemplo, gostam de vinhos com fortes traços dessa madeira. Um novo estilo mundial de consumo vem se afastando desse modelo.


22 de fev. de 2010

NEGÓCIOS FRAUDULENTOS NO MUNDO DO VINHO




De como o filme Sideways, ao fazer crescer o consumo de Pinot Noir, nos Estados Unidos, “inspirou” a articulação de uma fraude


No dia 18 de fevereiro, o tribunal correcional * de Carcassone, região de Languedoc-Roussillon, no sudoeste da França, condenou a penas de prisão de 1 a 6 meses e multas de milhares de euros, 12 administradores de empresas de comércio de vinhos, negociantes, produtores e cooperativas vinícolas, responsáveis por uma das maiores fraudes que se tem conhecimento recente no mundo do vinho. Segundo o jornal Midi Libre on line, de Montpellier, cerca de 135 mil hectolitros de vinho regional comum a granel – o equivalente a 18 milhões de garrafas – foram vendidos entre 2006 e 2008 a empresas norte-americanas como sendo do varietal Pinot Noir.

Entre as empresas que receberam o falso Pinot estão E.& J. Gallo, maior produtora/importadora de vinhos dos Estados Unidos, que vende o varietal francês sob a marca Red Bicycle. Acredita-se também que e a número um mundial do setor, Constelation Brands, que controla, entre outras, a famosa marca de vinhos Mondavi, da Califórnia, também tenha recebido parte do vinho fraudado, pois está na carteira de clientes da empresa Cave de Sieurs d’Arques, de Limoux, exportadora final do falso Pinot.


Segundo o juiz relator do processo, a fraude propiciou ganhos ilícitos de cerca de 7 milhões de euros e, por sua amplitude, constitui um prejuízo severo para a imagem dos vinhos do Languedoc, para os quais os Estados Unidos são um mercado importante, noticiou o jornal regional on line L’Indépendant. As condenações incluem penas de 1 à 6 meses de prisão (com sursis) e multas de 1.500 à 180.000 euros. Uma das principais empresas envolvidas, Cave Sieurs d’Arques,  já apelou da decisão, nesta semana.

A fraude foi denunciada no início de 2009, mas teria começado em 2005. De acordo com parte do relatório de 45 páginas do processo, disponibilizado pelo L’Indépendant, a descoberta ocorreu durante uma inspeção de rotina dos agentes regionais da Direção Geral da Concorrência, Consumo e Repressão de Fraudes, subordinada ao Ministério da Economia e Indústria francês, que faziam o levantamento nacional para o estudo do mercado dos vinhos varietais.

Em uma das empresas de comércio de vinhos inspecionadas, em Carcassone, eles tiveram uma surpresa: constataram que o volume do varietal Pinot Noir comercializado num dado período correspondia, naquela única empresa, ao volume da produção total anual desse varietal em toda região do Languedoc Roussillon. Em 2006, a empresa teria comercializado 93 % de todo o vinho Pinot Noir produzido na região e, em 2007, o total chegaria a 132%! Observe-se que a cultura desse varietal é marginal na região, onde preponderam outros varietais tintos, tais como carignan, grenache, syrah, cinsault, mourvèdre e muscardin. Por outro lado, o preço pago por essa empresa a seus fornecedores era sensivelmente inferior à média de preço do varietal Pinot Noir registrada pelo escritório nacional da cadeia de produção de uvas, frutas e hortaliças da França (Viniflhor), mas bem maior do que o preço do vinho regional comum, oriundo de assemblage de outros varietais. 

Segundo os intermediários das vendas de falso Pinot, o interesse dos clientes estadunidenses por esse varietal se deu pelo aumento do consumo conseqüente à exibição de um filme, em cuja trama romanceada, um personagem exaltava as qualidades do varietal Pinot Noir (evidentemente, Sideways,lançado em 2004). Bastava que as partidas exportadas fossem identificadas como Pinot. Para encobrir a fraude os comerciantes de vinho mantiveram registros em duplicidade. Nas notas arquivadas nas empresas, constava a venda de vinho regional comum. Nas notas de exportação, venda de Pinot. Durante o inquérito judicial, eles argumentaram que para o mercado dos Estados Unidos, o termo Pinot não passa de uma referência comercial, e que o essencial era que as qualidades organolépticas do vinho correspondiam às amostras pré-selecionadas pelos compradores. O jornal Midi Libre informa que o vinho objeto da fraude era dos varietais Merlot e Syrah.

Personalidades do primeiro plano vitícola da região do Languedoc Roussillon estão no rol dos condenados, como o presidente e o diretor da Cave Sieurs d'Arques, de Limoux, que representava o último elo do negócio, envolvendo dirigentes de oito vinícolas nos departamentos de Aude e de Hérault, tais como Vignobles Maurel, Fabrezan Viticulture, caves cooperativas de Canet d'Aude e de Barbaira, Cooperativa e Sociedade Comercial de Montblanc, Cave Cooperativa de Pignan, Sociedade Clairiège de Nissan-les-Enserune e a Cave Cooperativa de Cournonterral. As vinícolas forneciam sua produção à empresa comerciante de vinhos Ducasse, em Carcassonne, cujo diretor foi considerado verdadeiro articulador do esquema. Essa última revendia o falso Pinot à Cave Sieurs d'Arques que o exportava.

Nos Estados Unidos, segundo despacho da Agência France Presse, citado por L’Indépendant, um comunicado da E.&J. Gallo, manifesta que a empresa ficou profundamente decepcionada com a condenação da Cave des Sieurs d'Arques. Em atenção aos seus consumidores, Gallo informou que o caso não estava relacionado com sanidade ou segurança alimentar dos vinhos, que o Pinot em questão era das safras 2006 e anteriores e que esses vinhos não estão mais à venda. Acrescentou ainda que as quantidades compradas da empresa Cave Sieurs d’Arques representam apenas 20% do total considerado fraudado. A E.&J. Gallo não integrou a demanda judicial.

* Na França, o Tribunal Correcional é uma câmara colegiada que julga delitos criminais, fazendo parte do Tribunal de Grande Instância, encarregado das matérias cíveis.


Fontes: L'Indépendant; La Depeche.fr; Midilibre.com; www.oenologie.fr

29 de dez. de 2009


A VODKA E O VINHO - O negócio da Pernod Ricard com a Miolo



No mundo do vinho brasileiro, a primeira década do século 21 vai se fechando com a compra espetacular do complexo vitivinícola Almadén, da multinacional francesa Pernod Ricard, pela brasileira Miolo Wine Group, anunciado no começo de outubro último.

A importância do negócio é dada pela dimensão do empreendimento adquirido, segundo comunicado conjunto enviado à imprensa: 1200 hectares de terras, na localidade de Cerro Palomas, em Santana do Livramento, paralelo 31, na região da Campanha, Rio Grande do Sul, dos quais 575 hectares cultivados com viníferas finas; área industrial com capacidade anual de processamento de 6 milhões de quilos de uvas e de armazenamento de mais de 8 milhões de litros em tanques de inox e 63 mil litros em barris de carvalho; unidade de engarrafamento capaz de produzir 700 caixas/hora. O patrimônio inclui as marcas das linhas de vinhos Almadén Reserva Especial, Almadén Sunny Days, Almadén Clássicos e espumantes Almadén. Para a Miolo Wine Group, a transação significou uma oportunidade inescapável na direção da liderança no mercado brasileiro de vinhos, o que será a alcançado com a produção de 12 milhões de litros de vinhos finos e um faturamento de R$100 milhões, de acordo com o informe .

Mas a pergunta que se impõe, diante da magnitude do negócio, é por que teria a Pernod Ricard resolvido abandonar a Vinícola Almadén, cuja marca ao longo de 20 anos era líder no segmento de vinhos finos nacionais, ainda constando como a mais lembrada pelos consumidores em diversas pesquisas, e num momento em que se revelam altamente promissoras as tendências de crescimento do consumo e de vendas do mercado brasileiro de vinhos e espumantes?

Algumas informações locais indicavam que a Pernod Ricard baixara progressivamente os investimentos na Almadén e que perdera terreno no negócio do vinho no país, com o recente fim da licença de comercialização da marca Casillero del Diablo, rótulo importado dentre os mais vendidos no Brasil, pertencente ao grupo chileno Concha y Toro. São fatos consideráveis, mas não explicam os motivos da transação.



Na realidade, a resposta mais plausível para a venda da Almadén chama-se Absolut Vodka, marca incorporada ao portfolio da Pernod Ricard em meados de 2008, a um custo de 5,69 bilhões de euros – afirma Alfredo Manuel Coelho, pesquisador associado do Centro Internacional de Estudos Superiores em Ciências Agronômicas da França (SupAgro), localizado em Montepellier. Em contato exclusivo ao Blog Cantina de Porão, ele explica que a marca Absolut “foi um investimento excessivamente caro para a Pernod Ricard, que aumentou muito o seu nível de endividamento”.

“O negócio que mais interessa a Pernod Ricard são os destilados e não o vinho, apesar de ter uma presença importante no setor de vinhos na Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Espanha”, diz Coelho. A razão, mostra o pesquisador, é que “as margens dos destilados são muito superiores e o objetivo da Pernod Ricard é ultrapassar a quota de mercado do líder mundial de destilados (Diageo)”. Nos Estados Unidos, por exemplo, a vodka é um dos segmentos de bebidas destiladas de maior crescimento. “No ano passado, a taxa de crescimento foi de 25% em volume, enquanto o rum, que ficou em segundo lugar, cresceu 12% em volume” – acrescentou.

Nessa perspectiva, em julho de 2008 a Pernod Ricard finalizou a compra da empresa sueca Vin & Spirit, que controlava a marca Absolut, vodka líder em vendas em muitos mercados, incluindo os Estados Unidos. Para a redução da dívida, diminuição do risco e manutenção dos padrões de benchmarketing diante das competidoras Diageo, Brown-Forman e Fortune Brands, foi necessária a venda de outros ativos controlados do grupo francês, explica Alfredo Manuel Coelho.

Segundo o pesquisador, depois da compra da vodka Absolut, a Pernod Ricard tentou vender as vinícolas que mantém em Rioja, na Espanha, especialmente a mais importante, a marca Campo Viejo. Mas, continua ele, “o problema é que hoje, no mercado mundial há demasiadas empresas vinícolas à venda (especialmente na Austrália) e o setor do vinho na Europa atravessa muitas dificuldades”. Isso explica a oferta à venda da Almadén, uma jóia rara para qualquer empresa interessada em aumentar o seu espaço no mercado brasileiro de vinhos e espumantes. Um negócio que certamente não foi cotado abaixo dos preços internacionais na avaliação de Alfredo Manuel Coelho, especialmente considerando as expectativas de crescimento do consumo e vendas de vinho no Brasil e a inevitável atenção que deverá ser dada às taxas de importação de vinhos, no sentido de proteger a indústria brasileira de vinhos, observa.


Por outro lado, Coelho considera que, em função das crises do setor internacional do vinho (sobreprodução no sul da Europa e na Austrália) e da crise financeira mundial, da qual a Europa, Estados Unidos e outros grandes países ainda se ressentem, o momento não é propício à venda de propriedades vitivinícolas, mas sim à compra, pois há muitas oportunidades boas no mercado internacional, para quem tem dinheiro, evidentemente. Essa realidade pode ter rendido alguma vantagem à empresa brasileira na transação, mas a conjunção de interesses específicos certamente determinou o valor do negócio, aliás não revelado, nem objeto de especulações, na imprensa local.

Notas:

1- Alfredo Manuel Coelho, pesquisador PhD da Unidade Mista de Pesquisa - Mercados, Organizações, Instituições e Estratégias dos Atores (UMR/MOISA/ SupAgro/Montpellier) é autor e co-autor de vários trabalhos sobre a globalização do mercado do vinho e as estratégias das multinacionais do vinho, especialmente a partir dos anos 80.

2- Analisando-se o perfil da Pernod Ricard, que se apresenta em sua própria página na internet como empresa co-líder mundial em spirits, pode-se perceber que efetivamente o grosso do negócio da multinacional está relacionado à marcas mundialmente famosas de bebidas destiladas tais como:uísques Ballantine’s, Chivas Regal, Jameson, The Glenlivet; vodka Absolut, gin Beefeater, rum Havana Club; licores Malibu e Kahlua; conhaque Martell; aperitivo de anis Ricard, além de dezenas de outras marcas locais.

3- O grupo Pernod Ricard também tem posição de liderança no mercado de vinhos premium, ocupando o 4º lugar no ranking mundial, com as marcas Jacob’s Creek (o vinho australiano mais conhecido internacionalmente), Montana (o vinho neo-zelandês mais vendido no mundo),e os champanhes franceses Mumm (vendido em mais de 100 países) e Perriet-Jouët (entre os dez líderes de mercado dos champagnes premium).

4- Na Argentina, a Pernod Ricard controla as seguintes marcas: Graffigna, Etchart, Colón, Santa Sílvia, Balbi e o espumante Mumm. Coincidentemente, são marcas de vinho exportadas para o Brasil e presentes em grandes redes de distribuição no Rio Grande do Sul. Na Espanha: Campo Viejo e Marques de Arienzo, entre outras.

5- Após a venda da Almadén, a Pernod Ricard mantém um escritório central em São Paulo e duas unidades fabris, a matriz em Suape, Pernambuco, dedicada ao blending e engarrafamento dos destilados Ron Montilla, uísques Passport, Teacher's, Natu Nobilis e vodka Orloff. Em Resende, no Rio de Janeiro, funciona a destilaria, o envelhecimento, o blending e o engarrafamento dos mesmos produtos de Suape, além da Cachaça Janeiro, Cachaça São Francisco, Rum Malibu, dentre outros, conforme informações da página da empresa na internet.

6- Na seqüência da compra da Vin&Spirits, em 2008, a Pernod Ricard tomou várias iniciativas para restaurar sua capacidade financeira. O programa de vendas, com 70% das metas cumpridas, já alcançou um montante de 700 milhões de euros, segundo relatório anual da empresa 2008-2009, e incluiu entre outras, a venda das marcas Bisquit (conhaque), Wild Turkey (bourbon) e Tia Maria (licor de café), até julho 2009.

5 de nov. de 2009

DOS MANDAMENTOS DO VINHO

Mandamentos do vinho há muitos, em todo o mundo, reflexos das experiências e da cultura de cada povo. Humorísticos e apelativos a maioria, outros proverbiais e prescritivos. Gosto mais dos atribuídos ao expert argentino em vinhos Miguel Brascó, responsável junto com o jovem conaisseur Fabrício Portelli pelo Anuário Brascó de los Vinos Argentinos, que tem como subtítulo “o guia mais descolado”. Gosto porque Brascó assinala que beber vinho é uma experiência subjetiva, que não há receitas, nem regras. E o mais importante é que o vinho é algo integrante da refeição e, fundamentalmente, algo para ser apreciado no convívio, em boa companhia.





Los 10 de Brascó (del vino)

1. “Para tomar vino no hay que saber nada.”
“Para tomar vinho não é preciso saber nada.”

2. “No te dejes impresionar por lo que dice la gente acerca del vino. Nadie sabe nada.”
“Não te deixes impressionar pelo que dizem as pessoas. Ninguém sabe nada.”

3. “El mejor vino es el que a ti te gusta.”
“O melhor vinho é aquele que te agrada.”

4. “El vino no se habla, el vino se toma. Es un elemento de la mesa, no para degustar.”
“Do vinho não se fala, o vinho se bebe. É um elemento da mesa, não para degustar (analisar criticamente).”

5. “El vino en la comida mejora el placer del comer.”
“O vinho junto com a comida aumenta o prazer do comer.”

6. “Ni el vino tiene que ser más fuerte que el plato, ni el plato tiene que ser mas fuerte que el vino.”
“ Nem o vinho tem de ser mais forte que o prato, nem o prato tem de ser mais forte que o vinho.”

7. “Hay que probar varios vinos, para irse formando una experiencia. Escoge uno y prueba todas sus versiones para comparar.”
“É preciso provar vários vinhos, para ir formando uma experiência. Escolhe um e prova todas as suas versões para comparar.”

8. “Si sabes comer, sabes cocinar, entonces por naturaleza buscarás el vino adecuado.”
“Se sabes comer, sabes cozinhar, então naturalmente buscarás o vinho adequado.”

9. “El vino te levanta la vida.”
“O vinho eleva a tua vida”

10. “No hay vinos, hay botellas. No hay botellas, hay copas. No hay
copas, hay situaciones. No hay situaciones… hay compañías.”
“ Não há vinhos, há garrafas. Não há garrafas, há taças. Não há taças, há situações. Não há situações...há companhias.”

13 de out. de 2009

UM SÁBADO NA FENACHAMP


Para quem gosta de espumante e quer aumentar suas experiências degustativas, uma oportunidade imperdível é a visita a Fenachamp, a Festa do Espumante, que acontece até o dia 25 de outubro, em Garibaldi, na Serra Gaúcha.

Em um ambiente bastante agradável, é possível sentar-se confortavelmente e degustar espumantes variados de mais de 20 vinícolas, pagando em torno de R$4,00 a R$5,00 a taça, ou dividir uma garrafa com amigos, a preços médios de R$20,00. Ou seja, espumantes de grande qualidade, a preço de supermercado, com a diferença de poder usufruí-los em um ambiente requintado e ainda beliscando algum petisco que pode ser pedido em stands próximos.

A recomendação que se faz para quem está buscando ampliar seu leque de opções de degustação é deixar de lado as marcas mais conhecidas das grandes vinícolas e incursionar pelos stands das pequenas ou novas vinícolas, cujos rótulos dificilmente serão encontrados em pontos de venda usuais, ou mesmo fora da sua região de produção. Algumas vezes eles estarão depois apenas em alguns caros restaurantes de centros maiores.

Portanto, a ordem é garimpar, conversando com o pessoal de atendimento, que às vezes são os próprios produtores ou seus familiares. É a grande chance de descobrir espumantes muito bem elaborados e de excelente custo-benefício. Dentre os inúmeros espumantes de qualidade presentes na festa, destaco o Pedrucci Brut e o Pedrucci Brut Rosé, elaborados pelo método Charmat. Ambos surpreendem pelo frescor, pelos aromas delicados e perlage de bolhas finas e de longa persistência. Confira também o stand das microchampanharias da Associação dos Vinicultores de Garibaldi (Aviga).

Ao longo do dia, o pavilhão da Fenachamp ainda é palco para apresentações musicais de grupos locais, não necessariamente profissionalizados, mas que são expressões da cultura urbana e rural local e dos esforços de integração comunitária. Assim, idosos do coletivo "Vivere Bene" emocionaram os visitantes com performances de baile de máscaras medieval e do espetáculo "New York, New York". Não falo aqui dos shows de grupos ancorados na mídia, trazidos para atrair multidões à festa, mas daquilo que é genuína construção da criatividade local.

















Na parte externa, próximo a entrada onde foi montada a Vila Típica Italiana, há venda de
artesanato e produtos regionais. No casarão onde funciona a cozinha colonial, é possível ver como se fazia, no passado,o pão, a cuca e massas doces no forno a lenha.









Entre as tendas, também encontramos em um coreto,o duo Olímpia e Elisete, cantando tristonhas e antigas canções regionalistas e gauchescas, ao som de um surrado acordeão, manejado por Olímpia. A falta de aplausos não desanimava a dupla, Olímpia até se encorajou a mostrar composições suas, de amores desfeitos e partidas inesperadas. Ela é a "gaúcha da gaita" na emissora de rádio local. Lá pelas tantas, na tarde quente, alguém mandou uma taça de espumante a Olímpia...






15 de ago. de 2009


OS 20 ANOS DE “AVENTURAS NA ROTA DOS VINHOS”

Arlete R. de Oliveira
Jornalista

Um livro inspirador sobre a busca da originalidade e da diversidade no mundo do vinho está completando 20 anos em 2008. Não se trata de um manual de viticultura ou enologia. É a trajetória de um homem que, em pleno boom internacional dos vinhos superalcoólicos e madeirizados, nos anos 80, resolveu seguir na contracorrente. Tomou para si uma espécie de cruzada no sentido de garimpar na França os melhores vinhos elaborados no velho estilo tradicional, por pequenos produtores. E tornou-se uma lenda pela reverência a uma vinicultura de mínima intervenção, que acreditava revelar a melhor expressão de cada lugar, em vinhos de grande riqueza de cor, aroma e sabor.

Desafortunadamente, o relato de “Adventures on the Wine Route”, de Kermit Lynch, não despertou o interesse dos tradutores brasileiros na época de seu lançamento, nos Estados Unidos, em 1988. Na atualidade, entretanto, quando o mundo parece cansar-se da moda de vinhos superpesados que predominaram nas últimas décadas, o livro de Lynch merece ser citado como referência de um estilo de produção mais natural, que reconquista espaço em todo mundo, e também como precursor dos atuais movimentos contra estandardização do gosto promovida pela produção industrial globalizada. Prova de que a obra não perdeu interesse foi o recente lançamento de uma nova edição da tradução francesa, agora em formato de bolso, pela editora Payot & Rivages, de Paris.

Em suas “Aventuras na Rota dos Vinhos”, Lynch, um importador que tinha uma pequena loja na Califórnia, em meados dos anos 70, narra a história de sua conversão aos vinhos elaborados no velho estilo e da peregrinação que realizou anos a fio nas regiões demarcadas de qualidade na França, a procura de vinhos vinificados naturalmente. O que ele buscava eram vinhos diferenciados, com pouca ou nenhuma adição de sulfito, preferencialmente sem filtração. Tinham de ser originais, expressando as características do local onde os vinhedos eram cultivados, e elaborados de modo a não perder o perfume, os gostos terrunhos e a capacidade de permanecer vivos ao longo do tempo.

O ENCANTO DA DIVERSIDADE

“Um dos milagres do vinho francês, uma razão pela qual ele é incessantemente encantador é sua diversidade”, admirava-se ele, referindo-se à capacidade de se encontrar numa mesma região e com uvas de um mesmo varietal, vinhos com nuances diferentes de aroma e sabor. Graças às suas incursões pelo interior da Borgonha, dos vales dos rios Loire e Rohne, da Provence, Bordeaux e sudoeste francês, ele conseguiu estruturar uma rede de fornecedores de vinhos de grande qualidade que se manteve e se renovou ao longo dos anos.

Lynch vinha de uma época em que o paladar californiano exigia vinhos de “encher a boca”, às custas de qualquer outra virtude, inclusive autenticidade. Mesmo a França, dizia ele, em todas as regiões importantes, estava cheia de vinhos superalcoólicos e supermadeirizados, devido a excesso de chaptalização (adição de açúcar ao mosto para aumentar o teor alcoólico) e passagem prolongada em barricas de carvalho novas. Para Lynch, o destaque dado a esses vinhos tinha uma causa: a prática de degustação às cegas, que acabava sempre elegendo o mais “potente”, dentre os avaliados. Os vencedores eram vinhos “arrasa-quarteirões”, big wines, monstros em taninos e álcool, que amadurecendo, perdiam a fruta, mas continuavam monstros em taninos e álcool, afirmava ele. Na sua opinião, esse tipo de certame era feito para seduzir jornalistas e degustadores, para que influenciassem os consumidores, do mesmo modo como impactaram as práticas de vinificação adequando-as à fórmula.

A crítica de Lynch tinha relevância, considerando-se que apenas nesta primeira década do século XXI, alguns dos grandes comentaristas internacionais de vinhos começaram a repudiar a moda de vinhos supertânicos, superalcoólicos e com excesso de carvalho. A avaliação de vinhos visando sua pontuação em um ranking também foi alvo de sua crítica. “Os escores numéricos afastam os consumidores de uma real e significativa apreciação de vinho fino”.O melhor, apontou ele, é “apreciar um vinho pelo que é, com a mente aberta, buscando o prazer, não um escore numérico”.

PRODUZIR A UVA, CRIAR O VINHO

O que é especial no livro de Lynch é o modo como fez seu aprendizado em conversas nas cantinas, junto das barricas, cheirando e degustando vinhos, escutando e anotando. É assim que nasceu um sentimento quase reverencial pela sabedoria daqueles vignerons artesanais, guiados pela experiência, gosto e instinto plasmados em séculos de existência. Naquele mundo que Lynch ia descobrindo viviam homens simples, perfeitamente integrados ao ofício de produzir a uva e criar o vinho. Tinham as mãos escurecidas pelo trabalho nos vinhedos e na caves e sabiam tirar da terra a sua melhor expressão, utilizando praticamente apenas insumos e práticas naturais. Muitos desses personagens e lugares foram registrados em imagens em preto e branco pela fotógrafa Gail Skoff, esposa do autor.

Mais do que mero importador, Lynch tornou-se uma figura lendária também pelo seu trabalho educativo. Primeiramente por destacar a diversidade de aromas e sabores que poderiam ter vinhos originários de vinhedos cultivados em diferentes regiões, tipos de solo, climas e altitudes e resultantes de diferentes práticas de cultivo e de vinificação. São os elementos que caracterizam a famosa expressão francesa terroir. Depois, por sua insistência na originalidade dos vinhos produzidos com mínimas técnicas de intervenção, “vinho natural”, e sem filtração, “vinho vivo”, segundo ele.

Na visão de Lynch, dentre as ameaças daquele momento ao estilo tradicional de vinicultura se destacava a expansão da tecnologia industrial, facilitando maior lucro com a ampliação da produção daquilo que os seus amigos vignerons chamavam de “vinho tecnológico”. Decepcionado, ele registrava as mudanças. “Hoje a mentalidade é diferente. O instinto motivador é diferente. O progresso não é mais medido pela qualidade; é medido pela segurança e facilidade. A enologia está afastando o lado arte do fazer vinho”, resumia.

“O VINHO É ALGO VIVO”

Assim, lamentava ele, desaparecia lentamente a velha França.“A vinificação tradicional em cada região vinícola francesa, permitiu o terroir expressar-se no vinho. As técnicas modernas destroem ou mascaram essa originalidade em nome da segurança”, afiançava. Note-se que estava falando do observava naquele país nos anos 80. Poucos dos novos enólogos – dizia Lynch – sabem degustar ou se importam com o gosto do vinho, desde que as análises estejam corretas. “Eles se sentem seguros com um vinho estéril. Isso não é vinho. Vamos dar um outro nome a essas bebidas baseadas em uvas. O vinho é algo vivo”.

Embora trabalhando com produtores praticamente desconhecidos para os consumidores americanos na época, Kermit Lynch construiu sua reputação com base em um compromisso com altos parâmetros de qualidade de degustação. Só negociava com aqueles que, além de seguirem a vinificação tradicional, também engarrafavam o vinho na propriedade, uma garantia de autenticidade. Ainda foi um dos primeiros importadores dos Estados Unidos a transportar suas encomendas em containers refrigerados, da Europa até a porta de sua loja.

Muitos dos vignerons citados no livro já não são mais fornecedores de Lynch, ou porque desapareceram, ou porque deixaram de produzir no estilo tradicional, ou porque não houve mais acordo comercial. Mas boa parte dos nomes mencionados em seu livro encontra-se hoje no topo de uma lista de vinicultores regionais de grande projeção na França: Hubert de Montille, Henry Jayer, François Reveneau (Borgonha); Jean Louis Chave, Auguste Clape, Henri Brunier (Rhone); Didier Dagueneau, Charles Joguet (Loire) e Domaine Tempier - família Peyraud (Provence). Também foi Lynch quem levou os vinhos do aguerrido Aimé Guibert (Mas Daumas Gassac), para os californianos.

Com tanto encanto pelo vinho, Lynch acabou também se tornando produtor. Em 1998, em parceria com a família Brunier, adquiriu o Domaine Les Pallières, em Gigondas, nas encostas ao sul do rio Rhone, região da Provence. Hoje, aos 65 anos, vive metade do ano com a família, próximo a Toulon, no sul da França, e outra metade nos Estados Unidos. Adventures ganhou o prêmio Livro do Ano Veuve Clicquot – USA e também foi traduzido para o francês. Em 2005, Lynch igualmente recebeu a medalha Chevalier de la Legion d’Honneur do governo francês, como anteriormente outras tantas personalidades estrangeiras do mundo do vinho, entre elas os também americanos Robert Mondavi (produtor que revolucionou a vitivinicultura nos Estados Unidos) e Robert Parker Jr.(o mais famoso crítico de vinhos da atualidade).

“Vinho verdadeiro é mais do que uma bebida alcoólica. Quando se experimenta um vinho de um terroir nobre, bem elaborado, incólume e vivo, pode-se concluir: aqui está um presente da natureza, a fruta da vinha suprida pela terra, amadurecida pelo sol, modelada pelo homem”. (Kermit Lynch)


(Matéria originalmente publicada na edição de setembro de 2008 da Revista Bon Vivant, do Rio Grande do Sul)

DA ARTE DE ESCREVER

“A experiência de ir ver o mundo, a curiosidade de olhar e escrever, muda-nos e muitas vezes não sabemos o que pensamos sobre certa experiência até escrevermos sobre ela”. (V.S. Naipaul)